O
historiador argentino Luís Alberto Romero (2011) afirmou em um de seus textos
que as construções da memória e da história "esquentam" ou
"esfriam", de acordo com o objeto com o qual lidam. Um objeto seria
"frio", caso se tratasse, por exemplo, da memória sobre o passado
romano construída durante o Império. A "temperatura aumentaria", se o
tema fosse a memória da nação e seus mitos de origem. Atingiria seu "ponto
máximo", quando se tratasse da memória do passado recente, ou melhor,
daquela parte do passado recente que dói. Em outras palavras, o passado que dói
seria aquele que ainda tem estreita conexão com o mundo em que vivemos e
atuamos. No nosso caso, esse passado seria o militar, e o da nossa recente
experiência democrática. Tais questões ainda provocam muitas controvérsias e se
confundem com militância política mais frequentemente do que ocorreria em temas
mais "frios". Romero ainda prossegue afirmando que: "O
historiador como pessoa tem duas almas, que coexistem, em harmonia ou conflito:
é ao mesmo tempo cidadão e historiador...” (2011, p02). Algumas vezes, atua
como um, outras, como outro, e em outras trata de encontrar um equilíbrio, um
balanço. Nos estudos do 'passado que dói' finalmente se adverte para essa dupla
condição: ator comprometido e analista; cidadão que defende valores; e
praticante de um saber que os relativiza.
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